Quem são as mulheres atingidas? Desigualdades, cuidado e pertencimento entre as integrantes do Movimento dos Atingidos por Barragens

Este artigo integra o conjunto de análises feministas produzidas a partir da pesquisa Sem Parar 2025: o trabalho e a vida das mulheres cinco anos depois da pandemia, iniciativa da SOF Sempreviva Organização Feminista em parceria com a Gênero e Número, com apoio do Ministério das Mulheres. A pesquisa ouviu mais de 2.000 mulheres de todo o Brasil, e ancorada na economia feminista, investigou as dinâmicas de trabalho remunerado, doméstico e de cuidado não remunerado que estruturam a vida das mulheres brasileiras. Aqui, refletimos sobre o conjunto de respondentes que integram o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que representou cerca de ¼ das respostas da Pesquisa Sem Parar 2025, com um total de 499 respostas.

Com as respostas das integrantes do MAB criamos 04 bancos de dados que permitem uma análise em escalas complementares. O banco nacional (01) conta com mulheres de 13 estados das cinco regiões do Brasil1. Também criamos três bancos de dados complementares organizados por conjunto de atingidas: 02) atingidas por barragens (BA, CE, SC, PA); 03) atingidas por crimes socioambientais (MG, ES); e 04) atingidas por eventos da crise climática (RS, SP, BA, SC, RJ). Desta forma, construímos a pesquisa de maneira a aprofundar a compreensão e reivindicações sobre a realidade das mulheres atingidas, fortalecendo a elaboração das agenda políticas contribuindo para consolidar a construção do feminismo popular por meio da aliança entre movimentos sociais e a produção científica.

Ser “atingida”: uma categoria política e social

A categoria de “atingido” é uma construção política forjada na luta do Movimento dos Atingidos por Barragens que tem um papel fundamental no reconhecimento, na visibilidade e na luta pela garantia de direitos. Conquista histórica do movimento, em 2023 foi instituída a Política Nacional dos Direitos da População Atingida por Barragens (PNAB, lei nº 14.755/2023), onde há uma definição da população atingida por barragens: aqueles sujeitos que, por impactos da construção, operação ou rompimentos de barragens, perdem suas casas e/ou propriedades, perdem a garantia de poder exercer sua fonte de renda, perdem o abastecimento de água potável, perdem a capacidade de exercer seus meios e modos de vida. Podemos estender essa mesma definição para as pessoas atingidas por crimes socioambientais e para aquelas pessoas atingidas por eventos da crise climática como secas, enchentes e inundações, etc.

Com os dados da pesquisa Sem Parar 2025, esperamos contribuir com as reflexões sobre quem são as “atingidas”, mulheres que compõem as famílias, grupos, instâncias de coordenação e direção do MAB. Quando falamos em “atingida”, partimos do reconhecimento de que determinadas mulheres, em razão de sua localização territorial, de sua classe, de sua raça e de seu gênero, são desproporcionalmente afetadas pela instalação de grandes empreendimentos hídricos, por crimes socioambientais e pelos efeitos da crise climática. Os dados da pesquisa realizada com integrantes do MAB permitem traçar um perfil coletivo das atingidas que evidencia aspectos importantes de vulnerabilidade.

70% das respondentes do MAB se autodeclaram negras, proporção que supera os índices de negras no conjunto geral das mulheres brasileiras. Entre as atingidas por crimes socioambientais, essa concentração é mais alta e soma-se à presença maior de mulheres indígenas, o que aponta para uma sobreposição estrutural entre racismo ambiental, violação de direitos territoriais e as formas mais graves de impacto socioambiental.

No que diz respeito ao trabalho remunerado, as mulheres do MAB apresentam indicadores de vulnerabilidade muito mais pronunciados do que o conjunto geral das mulheres brasileiras. 77% das mulheres do MAB têm renda de até dois salários mínimos. 31% delas encontram-se em situação de desemprego, número maior do que os 17% registrados na pesquisa Sem Parar 2025 e muito superior aos 5,8% reportados pela PNAD Contínua do mesmo período para o conjunto das mulheres brasileiras. Essas três pesquisas, apesar das diferenças, apresentam uma semelhança relevante: as mulheres negras são maioria entre as desempregadas em relação às mulheres brancas. Além disso, entre as integrantes do MAB, 30% das mulheres trabalham de maneira informal, o que representa a maior parcela das que estão ocupadas, e o que reflete o momento do mercado de trabalho marcado por longas jornadas, poucos direitos e baixas remunerações.

Um olhar comparado entre os diferentes conjuntos de atingidas revela que as atingidas por crimes socioambientais, que na pesquisa compreendem residentes dos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Bahia, Rio de Janeiro e Santa Catarina, apresentam os maiores índices de mulheres que dizem viver com renda de até um salário mínimo e também daquelas em situação de desemprego. Esse também é o conjunto com maior quantidade de mulheres residentes nas cidades, reforçando que as consequências da crise climática recaem sobre populações de baixa renda residentes em áreas de risco, inclusive e sobretudo nos contextos de periferias urbanas.

A centralidade das mulheres como provedoras de seus lares é outro elemento que chama atenção na base de integrantes do MAB. 51% delas dizem ser as principais responsáveis pela renda familiar. Quando o recorte racial é aplicado, as mulheres negras se destacam como a maioria entre aquelas que são responsáveis por mais de 80% da renda do domicílio, combinando, assim, a posição de provedora principal com as demandas de trabalho doméstico e de cuidado que veremos a seguir.

Esses dados revelam as condições precárias de inserção e permanência no mercado de trabalho, refletem uma organização do mercado de trabalho profundamente desigual em termos raciais e de gênero, contexto de profunda precarização que permeia o trabalho e a vida das mulheres. Outra faceta desse mesmo projeto capitalista, racista e patriarcal são processos de espoliação territorial, que empurram as mulheres, mulheres negras, mulheres indígenas, para viver em locais mais vulneráveis, ficando assim mais expostas aos impactos negativos das crises climáticas, dos crimes socioambientais e da construção de barragens.

As dinâmicas de cuidado entre as mulheres atingidas

77% de mulheres do MAB indicam ser as principais responsáveis pelo trabalho doméstico realizado de forma não remunerada em suas casas. As mulheres com renda mais baixa, de até dois salários mínimos, constituem 85% daquelas que dizem ser as únicas responsáveis por esse trabalho.

58% das mulheres do MAB cuidam de outra pessoa de forma não remunerada, número superior ao observado no banco geral da pesquisa Sem Parar 2025, que registrou 48%. Entre as que cuidam de alguém, 49% são as únicas responsáveis e, entre as que compartilham essa responsabilidade, 46% ainda assim respondem pela maior parte do trabalho. As pessoas sob cuidado são majoritariamente filhos ou enteados (65%), seguidos de maridos (26%) e pais (20%). Os cuidados mais comumente realizados incluem a oferta de: carinho e suporte emocional, auxílio nos cuidados pessoais básicos, transporte e acompanhamento a compromissos.

Quando olhamos para os dados das mulheres do MAB e identificamos que nas dinâmicas de cuidado estão presentes de maneira significativa o cuidado com os maridos, pessoas adultas saudáveis e sem deficiência. Com isso, avançamos no entendimento do cuidado em sua dimensão substantiva e também ficam evidentes as relações de interdependência, de que todas as pessoas precisam de cuidado, que são parte incontornável da sustentabilidade da vida. Quando a pesquisa mostra que uma importante tarefa de cuidado é a oferta de carinho e suporte emocional, nos permite reconhecer que o cuidado é um trabalho que não é só material e técnico, mas também subjetivo. Consequentemente, quando falamos de sobrecarga, também estamos falando de uma sobrecarga emocional.

É urgente ir além da ideia de que existem pessoas destinatárias “por excelência” do cuidado (crianças, idosos, pessoas com necessidades especiais…), haja visto que grande parte do trabalho de cuidados sob responsabilidade das mulheres é emocional e destinado para pessoas saudáveis e sem deficiência. Questionamos também a ideia de que não existem pessoas que ocupam “por excelência” o lugar de cuidadoras, quase como uma condição natural, ao mostrar que essa carga de cuidado na vida das mulheres vem acompanhada por processos de adoecimento, dificuldade de inserção e permanência no mercado de trabalho, cansaço e exaustão. Na verdade, o cuidado é uma necessidade, e portanto é uma responsabilidade, de todas as pessoas.

Quando 57% das mulheres do MAB que cuidam de alguém afirmam não receber nenhum tipo de apoio institucional para desempenhar esse trabalho, e quando as instituições públicas são citadas como ponto de suporte por apenas 19% das cuidadoras, fica evidente a insuficiência do Estado diante dessa dimensão essencial da reprodução e sustentabilidade da vida. O cuidado que deveria ser responsabilidade compartilhada por pessoas de todos os gêneros e entre famílias, comunidades e poder público recai, no cotidiano das atingidas, quase exclusivamente sobre as mulheres, com peso desproporcional nas redes familiares.

Uma leitura interseccional é indispensável para não naturalizar esse quadro. As mulheres negras do MAB concentram as posições mais vulneráveis em todos os eixos analisados: são as mais expostas ao desemprego, as mais responsáveis pela renda familiar, as mais sobrecarregadas com o trabalho doméstico e de cuidado. As atingidas por crimes socioambientais, que incluem maior presença de indígenas, são as que menos recebem apoio institucional do Estado para fazê-lo. A interseccionalidade de gênero, raça e condição de atingida produz formas específicas e agravadas de violação dos direitos que precisam ser compreendidas e visibilizadas em sua complexidade.

As mulheres do MAB, organizadas em um coletivo nacional, desde 2011 produzem levantamentos sobre as violações de direitos sofridas pelas atingidas, em um esforço de revelar a especificidade de gênero e os impactos particulares que “ser atingida” tem na vida das mulheres. Os direitos violados sistematizados estão organizados em eixos: mundo do trabalho, atuação política, relação com empresas e com Estado, relação familiar e comunitária, direitos sexuais e reprodutivos e acesso às políticas públicas.

Os dados da pesquisa Sem Parar 2025 realizada com a base do MAB ajuda a ilustrar e compreender de que maneira as dimensões da sobrecarga com as tarefas de cuidado não remunerado, tanto doméstico como destinado às pessoas, ainda sob responsabilidade majoritária das mulheres, atravessa todas essas dimensões de violação de direitos de forma transversal.

Esses dados também contribuem para avançar no debate sobre a construção da Política Nacional de Cuidados no Brasil, instituída pela lei n. 15.069/2024, que estabelece o cuidado como um direito de todas as pessoas, definido como o “direito a ser cuidado, a cuidar e ao autocuidado”, e que é um instrumento importante na reivindicação pela corresponsabilização do cuidado entre família, comunidades, mercado e o Estado brasileiro. Além de mostrar a importância urgente de avançar em uma melhor divisão sexual e racial desses trabalhos de cuidado, os dados das mulheres do MAB, assim como os dados gerais da Pesquisa Sem Parar 2025, mostram a importância de irmos além de uma política de cuidado destinada à um “público prioritário”, sem que com isso perca um olhar sensível à interseccionalidade.

A importância dos movimentos sociais e das redes de amizade e vizinhança

Em diferentes aspectos desta pesquisa chama atenção nas respostas das mulheres do MAB a presença de vizinhas e amigas como redes de apoio. Essas pessoas compõem os núcleos familiares das populações atingidas, participam da divisão das tarefas domésticas e de cuidado, aparecem entre aquelas que estão sob a responsabilidade das respondentes e também são mencionadas como importantes fontes de apoio. A centralidade dessas redes de vizinhança, cuidado e solidariedade pode refletir a forma de organização dos Grupos de Atingidos do MAB, conectando pessoas que moram lado a lado e passam por situações semelhantes, construindo não apenas grupos de elaboração de agendas políticas comuns e reivindicação de direitos, como também grupos de apoio emocional e construção de horizontes comuns compartilhados.

Talvez seja a presença dessas redes fortes de vizinhança, amizade e movimentos sociais que explique que nesse mesmo contexto de sobrecarga e violação de direitos em que as atingidas são mais responsáveis pelo trabalho doméstico e de cuidado, que os dados também revelam que elas são mais esperançosas, confiantes e realizadas.

49% das integrantes do MAB se dizem esperançosas e confiantes de forma intensa ou muito intensa, contra 36% no banco geral da pesquisa Sem Parar 2025. Esses dados não apagam os processos de adoecimento: o cansaço e as dores físicas são sentidos de forma intensa ou muito intensa por 62% das atingidas, e a insegurança em relação à estabilidade afeta 48% delas de forma intensa. O que eles revelam é o impacto positivo da organização coletiva: a participação no MAB funciona como estrutura de suporte mútuo, de construção de sentido político e, em muitos casos, de garantia de condições materiais de reprodução da vida por meio de iniciativas comunitárias, como a distribuição de cestas básicas ou alimentos.

Esses dados revelam a importância dos movimentos sociais e dos núcleos territorialmente organizados nas dinâmicas concretas do trabalho de cuidado, e podem ser vistos em diferentes formas organizativas e de atuação política do MAB.

Um primeiro projeto do MAB que pode nos ensinar sobre o cuidado são As arpilleras2, são projeto do coletivo de mulheres do MAB que envolve a produção e exposição de peças têxteis bordadas de forma coletiva em encontros territoriais. Os bordados registram e denunciam a violação de direitos vividas e enfrentadas pelas mulheres atingidas. Transformando a arte em luta, em bandeiras de reivindicações, as oficinas de arpilleras também podem ser espaços de cuidado coletivo, à medida em que proporcionam escuta ativa e generosa, o aprofundamento de vínculos de afeto, confiança e amizade. São também espaços onde se aprofundam essas redes de vizinhança e amizade, e portanto, também podem ser compreendidos como espaços de politização do cuidado e de construção de outras lógicas de sua divisão, tanto no interior dos Grupos de Atingidos, como com as famílias, com o conjunto do movimento social e também com o Estado.

Outro aspecto que dialoga com a luta pela corresponsabilização do cuidado e construção de redes de apoio é a dos assentamentos coletivos previstos na PNAB. Construída a partir da luta popular territorialmente enraizada do MAB, a PNAB prevê para as populações atingidas o reassentamento coletivo “de forma a favorecer a preservação dos laços culturais e de vizinhança” (PNAB art. 3º, inciso II). Esses assentamentos são previstos para serem organizados de forma coletiva, com base na autogestão, e contando a “existência de espaços e equipamentos de uso comum (…) que permitam a sociabilidade e a vivência coletivas” (PNAB art. 3º, inciso XII).

A potência das redes de vizinhança e pertencimento do MAB nos permitem imaginar que esses espaços e equipamentos comuns, assim como os Grupos de Atingidos e as oficinas de arpilleras, podem ser pontos fundamentais de apoio, divisão e politização do cuidado, representando assim um espaço de autocuidado coletivo e de uma alívio da sobrecarga que adoece as mulheres. Para isso, é fundamental que esses espaços, projetos coletivos e Grupos de Atingidos nos bairros, debatam a divisão sexual do trabalho e avancem no sentido de pautar a corresponsabilização do cuidado entre todas as pessoas, as comunidades e o Estado.

É tempo de avançar! Mulheres construindo o feminismo popular!

Acesse os dados do MAB da pesquisa Sem Parar 2025.

1 Compõe o banco nacional do MAB 499 respostas de mulheres dos seguintes estados: MG, RS, SP, PI, BA, ES, PR, CE, SC, RJ, MA, PA, e DF

2 Conheça mais sobre o projeto das Arpilleras do MAB: https://mab.org.br/mulheres/