A luta das mulheres do semiárido por autonomia e políticas de cuidado

Para mulheres do campo, sobrecarga com trabalho doméstico não remunerado é ainda maior do que a das moradoras de áreas urbanas.

A realidade do semiárido impõe desafios singulares às mulheres, especialmente às que vivem na área rural. Lá, a luta por autonomia econômica está diretamente ligada à superação da escassez de água e à necessidade de socialização do trabalho do cuidado. 

Segundo a pesquisa Sem Parar 2025, 45% das mulheres de áreas urbanas são as maiores responsáveis pelo trabalho doméstico não remunerado. No campo, essa proporção sobe para 49%. O levantamento foi realizado pela SOF Sempreviva Organização Feminista e pela Gênero e Número, com apoio do Ministério das Mulheres. 


Para aprofundar essa discussão e trazer a perspectiva do campo, a Gênero e Número entrevistou Rejane Medeiros, coordenadora técnica do Centro Feminista 8 de Março e militante da Marcha Mundial das Mulheres. Ela reforçou a urgência de políticas públicas que reconheçam e transformem a jornada contínua de trabalho das mulheres.


A pesquisa também mostrou que 60% das mulheres estão muito cansadas e com dores físicas intensas. Para Rejane, esse dado reflete exatamente a sobrecarga vivida por muitas mulheres, especialmente as mais velhas da área rural que, além de suas atividades produtivas, assumem o cuidado de filhos, netos e pessoas idosas. O aumento da pressão física, segundo ela, se deve à ausência de políticas de socialização do trabalho de cuidado no campo, onde alternativas como creches e restaurantes coletivos seriam bem-vindas.


A mobilização envolvendo a economia solidária e os grupos de mulheres organizados surgem para dar mais autonomia a essas mulheres. Segundo a pesquisa, 49% das mulheres que participam dessas iniciativas contribuem com mais de 80% da renda familiar. No entanto, Rejane adverte que, embora a autonomia seja determinante, ela não elimina o acúmulo de tarefas.

Como funciona a dinâmica de vocês no Centro Feminista?

Rejane Medeiros_Eu trabalho no Centro Feminista 8 de Março desde 2003 e sou militante da Marcha Mundial das Mulheres., Hoje, eu sou coordenadora técnica do Centro, que é uma organização com 32 anos, com sede em Mossoró, no Rio Grande do Norte. A gente tem um espaço também na capital, em Natal, onde tem uma equipe mais reduzida. 


O Centro surgiu da luta pelo enfrentamento à violência contra as mulheres. Naquela época, fizemos uma mobilização com mulheres rurais e urbanas e conseguimos garantir uma delegacia especializada na cidade. A maioria das pessoas era voluntária. Havia muitas áreas de assentamento, não havia assistência técnica e a gente, às vezes, ia para as áreas rurais de carona com organizações para iniciar o processo de mobilização e organização das mulheres, com debates sobre desigualdade e direitos. 


No fim dos anos 1990, iniciamos um trabalho mais sistemático com grupos de mulheres, principalmente aqui em Mossoró e nas cidades do entorno. A gente atua muito com o recorte do semiárido, a atuação é muito mais rural do que urbana.

Começamos a acompanhar grupos na perspectiva da auto-organização e, quando passamos a debater com as mulheres, elas começaram a nos provocar: para a gente ter igualdade, liberdade, a gente tem que ter geração de renda!

É aí que o Centro passa a ter os primeiros apoios financeiros para realizar um trabalho sistemático, colocando um pequeno recurso para implementação de projetos produtivos coletivos. Esse é um ponto que marca muito o momento de fazer o debate com as mulheres sobre a autonomia econômica e geração de renda. É quando se desenrola o debate sobre a produção orgânica e depois a produção agroecológica. 


Chega também o debate da economia solidária que avança para economia feminista. A gente começa, inclusive, a perceber, debatendo com outras organizações que tinham homens na equipe, um questionamento de que a produtividade delas era baixa em relação à deles. E aí a gente vai perceber que, antes de as mulheres chegarem lá na horta, elas lavaram roupa, arrumaram a casa, deixaram a comida encaminhada e mandaram o filho para a escola.

Quem acordou às 4 horas da manhã para lavar roupa e poder ir produzir hortaliça, regar e capinar, não estava com a mesma disponibilidade de um homem que acordou, tomou café e foi produzir.

Qual é a importância da autonomia econômica para as mulheres que vivem no semiárido?

Rejane_Pensar em autonomia econômica significa pensar nas mulheres como donas das suas vidas, com domínio sobre o que vão fazer, em que vão utilizar os recursos e como vão fazer sua produção. Olhando para a nossa realidade, é importante destacar que várias áreas têm tido suas atividades produtivas impactadas por empreendimentos de energia renovável [solar]. 


Autonomia econômica é também ter o direito de ir e vir, porque parte das mulheres, pelo tanto de ações que elas se responsabilizam, não têm condição de atuar mais no sindicato, em movimentos. Elas se responsabilizam pelas suas atividades, pelas pessoas da casa, pelos filhos, pelo tanto de tarefas que têm que dar conta.


Como é a relação com o acesso à água?

Rejane_Tivemos uma mudança de realidade no semiárido a partir da construção das tecnologias sociais de captação de água da chuva ou que facilitem a produção e a redução de utilização de lenha, como é o caso dos fogões agroecológicos.

Então, por mais que hoje a gente tenha impactos maiores relacionados às mudanças climáticas, aqui, no semiárido, as famílias e as agricultoras estão vivenciando menos impacto do que antes, quando não tinham acesso à água.

O fato de hoje boa parte das famílias do semiárido ter acesso a cisternas para captação de água de chuva, para beber, cozinhar e produzir, ter condições de armazenamento de água foi determinante. Isso se deu, principalmente, nos primeiros anos do governo Lula. Embora tivéssemos menos impactos das mudanças climáticas, tínhamos mais mortes, porque as pessoas bebiam água em condições muito ruins, sem tratamento. E, quando passam a ter [acesso à água], tanto de capacidade de armazenamento quanto em qualidade, você tem condições mais favoráveis em relação à prevenção e à saúde.


Você também esteve presente na COP30, realizada em Belém (PA). Como foi a sua participação?

Rejane_Eu participei de um debate sobre transição energética justa. Fui como [integrante da] Marcha Mundial das Mulheres, e a ideia era trazer alguns elementos de reflexão a partir dos impactos da energia renovável aqui na nossa região. O debate eu acho que foi bem bom, mas eu ficava olhando ali o espaço, e tinham atividades dessas transnacionais lá dentro. 


É preocupante. A Cúpula dos Povos foi um espaço alternativo e de debate, de construção de proposição para também pressionar os governos de forma geral, no sentido de que haja de fato uma mudança de implementação das ações ligadas à defesa do território e justiça social. 


Por outro lado, você tem a apresentação dessas alternativas de energia renovável como uma coisa positiva. E o nosso litoral todo, como no Ceará, está tomado de energia eólica e solar. Esse ano realizamos a sexta ação internacional da marcha e, aqui na nossa região, debatemos muito essa questão da dos impactos das energias renováveis nos nossos territórios.Tem estudos que mostram as áreas que foram desmatadas para a implementação da energia solar, deixando um percentual baixo de mata nativa.


Existiu um debate em relação ao semiárido na COP30?

Rejane_Não. Inclusive, os movimentos, muito puxados pela Articulação Semiárido Brasileiro e pela Rede Serrana, no ano passado, colocaram uma campanha de proteção dos biomas. Mas, assim, tem um olhar de fato como se a nossa mata estivesse morta, quando não é no período de inverno [e está seca]. 


Há pesquisas sendo feitas sobre a capacidade da Caatinga [de armazenamento de água] nesse período seco [sem chuva], e ela tem inclusive uma maior capacidade de absorção do gás carbônico do que as outras matas. Eu acho que existe muito esse entendimento de que o semiárido, de que a nossa mata não tem muito valor.


A Sem Parar 2025 mostra que 60% das mulheres estão cansadas e com dores físicas. Como você vê isso em relação às mulheres do semiárido?


Rejane_Isso é o retrato de muitas mulheres, principalmente as mais velhas.

É uma realidade da área rural, são as mais velhas que, inclusive, cuidam dos seus filhos e passam a cuidar dos seus netos. Na cidade, houve um aumento de políticas em relação ao trabalho de cuidado, mas é muito longe da realidade rural. Porque, nessas áreas, não existem praticamente experiências de socialização do trabalho do cuidado.

A gente costuma dizer que o tema da creche não faz parte [do debate], tanto que, às vezes, a gente pergunta para as mulheres rurais quais alternativas seriam necessárias, e a creche quase nunca sai como resposta, porque nunca fez parte do universo delas. Então, praticamente não existe creche no rural. Como não tem, eu não consigo visualizar isso como uma alternativa, entende? 


Então, o fato de todo mundo ter tido um tempo parado em casa, durante a pandemia, aumentou o trabalho delas e, olhando cinco anos depois, os rearranjos que foram necessários na pandemia tiveram dificuldade de se desfazerem depois dela.

Você pode dar um exemplo desses rearranjos?

Rejane_Na família, tinham membros que trabalhavam fora, moravam sozinhos e voltaram para a casa [de familiares]. Ficou muita gente na mesma casa. Depois, as pessoas não mudaram de casa. Houve pessoas que passaram a cuidar de alguém, a cuidar de um idoso, com o término da pandemia isso não se desfez.


Outro dado é que 67% das mulheres viveram mudanças no trabalho remunerado após a pandemia.


Com a pandemia, houve um aumento da precarização do trabalho. A gente observa muito que a juventude não consegue entender ou ver essa questão do trabalho remunerado via CLT como uma coisa normal. É melhor ser autônomo, porque você faz o seu tempo.

Mas, ao mesmo tempo, se você faz o seu tempo e não tem que cumprir, necessariamente, uma carga horária, acaba trabalhando mais. E não tem direitos garantidos. Hoje, a gente observa muito isso com as pessoas que trabalham com aplicativo. Essa questão do trabalho em casa, do trabalho remoto, aumentou muito essa realidade. Com isso, também aumentou o trabalho doméstico, porque as pessoas que estão fazendo trabalho remoto se responsabilizam pelas coisas.

As mulheres da área rural estão mais cansadas?

Rejane_Em algumas áreas, a gente observa um aumento do uso de medicamentos como relaxante muscular ou tarja preta para dormir. Parece ter a ver com isso: você acumula uma jornada intensa de trabalho e não tem tempo de descanso. 


Eu olho também um pouco para as lideranças. A pandemia também aumentou a questão virtual. Acontecem muitas reuniões à noite, no intervalo do almoço. Então, as pessoas ficam cansadas. O mundo está muito acelerado, e a pandemia acelerou ainda mais muitas coisas.


Em contrapartida, a pesquisa mostra que a participação das mulheres na economia solidária aumentou e, com isso, elas passaram a protagonizar a renda familiar.  Como você avalia essa relação entre a autonomia econômica e a sobrecarga de trabalho?


Existe um desafio que é a implementação de políticas públicas de cuidado. Eu acho que, se a gente já tivesse conseguido negociar tudo isso com a parte que deve ser assumida pelas famílias, já teria conseguido um avanço gigante. Para o rural, essa demanda é ainda mais forte.


Mas tem sido bom para elas [a autonomia econômica]. Falta, de repente, conseguir fazer esse equilíbrio ou, talvez, trabalhar com elas essa questão do trabalho não remunerado que, no caso delas, seria o trabalho do cuidado. De repente, tentar fazer um trabalho com elas nesse sentido de outros membros da família assumirem mais essa responsabilidade. Não sei se existe espaço para esse debate também, porque depende da realidade delas em casa.


Quando você fala em política pública, está falando de quais iniciativas?

Rejane_A gente está falando de creche, da possibilidade de restaurante coletivo, comunitário, restaurante popular, espaços adequados para idosos. Quando você olha para o rural, é uma realidade muito concreta o aumento de idosos e a demanda por cuidado.


A população mais pobre não tem acesso à atividade física. Então, quando está na terceira idade, acaba tendo uma estrutura física muito mais comprometida. Inclusive, nós temos uma lavanderia coletiva [em uma área rural] que tem uma brinquedoteca. E as mulheres já demandaram: ‘Eu acho que deveria ter um espaço de academia para a gente’. E algumas até dizem: ‘Olha, algumas aqui não têm mais menino pequeno, então a brinquedoteca não vai ser tão necessária, deveria ser uma academia’.


Você tem acompanhado a elaboração do Plano Nacional do Cuidado? 

Rejane_O plano teve uma seleção agora, inclusive a Marcha se candidatou, numa categoria de movimentos nacionais. A SOF se candidatou como organização que atende a públicos específicos e tanto a Marcha como a SOF foram selecionadas. Na próxima semana [que começa em 15 de dezembro] vai ter a primeira reunião, de instalação do Comitê Estratégico de elaboração do Plano de Cuidados. Só então haverá seguimento. Mas a grande questão é orçamento. Precisa de um orçamento gigante [para ser implementado].


*Schirlei Alves atua com jornalismo investigativo orientado por dados e sob a perspectiva dos direitos humanos. Formada desde 2008 pela Univali, colaborou para o Epoch Times, no Canadá, e atuou como repórter nos principais jornais do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Seus trabalhos mais recentes foram para a Folha de S.Paulo, Abraji, Agência Lupa, O Joio e O Trigo, The Intercept Brasil e Portal Catarinas. Recebeu como reconhecimento os prêmios ABCR de Jornalismo, Unimed e RBS. Em 2022, concluiu especialização em Jornalismo de Dados, Automação e Data Storytelling pelo Insper.