A realidade da mulher imigrante e refugiada no Brasil é marcada pela exploração no trabalho, múltiplas violências e ausência de políticas públicas adequadas. Para entender a realidade dessas mulheres, que chegam ao país com a esperança de um futuro mais digno e acabam encontrando abusos e falta de acolhimento, conversamos com a coordenadora de projetos do Centro da Mulher Imigrante e Refugiada (CEMIR), Soledad Requena.
Requena é uma assistente social peruana com mestrado em Política Pública e Gênero, militante de direitos humanos, fundadora e coordenadora de projetos do CEMIR. Ela atua no combate à exploração e na promoção da autonomia das mulheres imigrantes e refugiadas no Brasil.
Ela aponta que o eixo central de luta da organização é visibilizar a tripla jornada de trabalho e a precariedade, que afeta principalmente as mulheres bolivianas no setor da costura, em São Paulo, onde ela atua com mais proximidade.
A vida dessas imigrantes é uma demonstração da intensa sobrecarga a que as mulheres são submetidas, mapeada pela pesquisa Sem Parar 2025, realizada pela SOF Sempreviva Organização Feminista e pela Gênero e Número, com apoio do Ministério das Mulheres.
Ao menos 49% das mulheres que participam de iniciativas de economia solidária contribuem com mais de 80% da renda familiar. Esse dado, apontado pela pesquisa, mostra como a economia solidária contribui para a sobrevivência das famílias, garantindo autonomia e fortalecendo o protagonismo feminino, mesmo em meio à vulnerabilidade. Porém, as imigrantes, assim como as brasileiras, acumulam trabalho remunerado, doméstico e de cuidado – com companheiros, filhos e idosos.
O combate à exploração, como ao trabalho análogo à escravidão, é uma das maiores preocupações da Cemir, uma vez que esbarra em barreiras estruturais. Requena critica a falta de continuidade das políticas de resgate, pois a falta de oportunidade no mercado de trabalho faz com que muitas delas voltem à situação de exploração.
A dificuldade é agravada, por exemplo, pela exigência do português fluente em entrevistas, além dos obstáculos para regularizar títulos profissionais e de estudos de imigrantes com qualificação profissional, como é o caso, segundo Requena, de boa parte das venezuelanas que chegam ao Brasil.
Para ela, a urgência no atendimento às mulheres imigrantes é clara: o Brasil precisa melhorar a fiscalização contra o trabalho análogo à escravidão, romper barreiras xenofóbicas e racistas no mercado de trabalho e garantir acesso à qualificação técnica em horários compatíveis com a realidade das mulheres que fazem jornadas exaustivas de trabalho remunerado e não remunerado. Além disso, é fundamental levar em consideração que elas enfrentam problemas emocionais graves devido às violências vividas em suas trajetórias de imigração.
Qual o papel do CEMIR na luta pelos direitos das mulheres imigrantes?
Soledad Requena_O Centro da Mulher Imigrante surge em resposta à ausência do foco de gênero na questão migratória. Historicamente, o Brasil sempre recebeu [o imigrante, mas], não da maneira mais adequada. Até 2015 a interseccionalidade não estava no discurso das organizações que trabalham com imigrantes, nem nas poucas políticas públicas [a respeito] no Brasil, principalmente em São Paulo. Em 2015, a gente começa a levantar essa bandeira. É por nós, por nossa organização, que coloca na agenda o debate da questão de gênero, a interseccionalidade e diversidade de mulheres – as mulheres trans, as mulheres lésbicas.
Em 2017, quatro mulheres – eu, do Peru; uma da Bolívia, uma do Congo; e uma do México – e um companheiro decidiram, criar essa organização para dar visibilidade ao debate que já tínhamos iniciado. Começamos a trabalhar de forma voluntária. A gente precisava ir nos bairros, falar com as mulheres, principalmente as de origem indígena, que vivem em situação de maior vulnerabilidade. O eixo central para nós é visibilizar as condições de trabalho das mulheres imigrantes e refugiadas e pôr em evidência a dupla e até a tripla jornada de trabalho.
Nós enfrentamos muita resistência de quem coordenava os espaços de política pública quando começamos a levantar a bandeira de gênero. Eles confrontavam a nossa pauta, pois a intenção não era só ter um grupo de mulheres, era enfrentar o machismo, o patriarcado. Nós crescemos tanto que viramos mais famosos como organização lá fora – na França, na Espanha, na Holanda – do que aqui no Brasil.
Quais são os principais eixos de trabalho do CEMIR? E qual é o perfil das mulheres que vocês atendem?
Soledad_São três eixos importantes: enfrentamento ao trabalho análogo à escravidão; enfrentamento à violência contra as mulheres; e priorização do direito ao trabalho digno. O imigrante tem acesso ao serviço público no Brasil, como saúde e educação, mas o desafio está no direito ao trabalho.
A gente identificou que a maior parte das mulheres trabalha na costura. Essa situação se agrava, porque além de cuidar da família, além de fazer as tarefas domésticas típicas das mulheres, elas têm que trabalhar nas oficinas. A situação em geral é extremamente difícil, interferindo na saúde física e mental.
Focamos em mulheres, por uma questão de gênero e porque, quando uma mulher assume liderança, se empodera, a família e a comunidade se empoderam. Nós temos visto mudanças incríveis nas mulheres que começam com a gente. Hoje, têm meninas que estão fazendo faculdade, outras que conseguiram se abrir com empreendedorismo, com economia solidária, outras que estão pensando em cooperativa.
A maior parte da população que atendemos é de bolivianas. Mas estamos ampliando o nosso eixo para outras nacionalidades, como mulheres africanas e mulheres árabes, que estão entrando no eixo do empreendedorismo (vendendo joias e bijuteria), que também é super complexo.
Em relação às venezuelanas, a questão é diferente. Muitas delas vêm com qualificação, porque, por mais que [alguns brasileiros] queiram falar mal da Venezuela, o país investiu muito na educação. Elas são muito empoderadas em seus direitos, fazem curso de português rápido, e muitas são de classe média.
As que estão em situação de vulnerabilidade ficam em estados próximos [à porta de entrada da imigração no país], como Roraima e Amazonas. No entanto, mesmo as qualificadas enfrentam exploração. Em um caso [que atendemos], se organizaram, conseguiram emprego em uma empresa, mas ganhavam menos que um salário mínimo, sem carteira assinada, e tinham que trabalhar de 8 a 10 horas. Elas aspiravam regularizar os seus diplomas de professoras e enfermeiras.
Qual é o principal desafio após o resgate de mulheres em trabalho análogo à escravidão, e como o trabalho coletivo impulsiona a autonomia, considerando a tripla jornada?
Soledad_Nós nos coordenamos com o Ministério Público e com todas as instâncias que resgatam as famílias. Dessas mulheres resgatadas, muitas voltam [para o trabalho análogo à escravidão]. O grande problema é a empregabilidade.
O trabalho coletivo é uma estratégia do CEMIR. Decidimos trabalhar nos territórios, articulando a população que vive aí. Nosso potencial foi capacitar lideranças com olhar coletivo. Elas são as encarregadas, porque parte do nosso desenho é que elas assumam e tenham autonomia para continuar na luta pelos direitos, com ou sem CEMIR.
As atividades comunitárias estão ligadas a cursos, rodas de conversa, atividades esportivas, como futebol, culturais, de saúde. Elas se articulam com o pessoal do posto de saúde e, quando há denúncia de discriminação ou racismo na escola, a liderança já está capacitada para acionar [as autoridades]. Elas se coordenam com grupos de mulheres antirracistas e, inclusive,enfrentam os seus pastores em suas igrejas.
Sobre a tripla jornada, se a gente for monetizar o que elas contribuem economicamente com trabalho de cuidado e trabalho doméstico, [além do trabalho remunerado] , nossa, acho que é até além dos 80% [da renda familiar provinda da economia solidária que a pesquisa mostra]. Os companheiros acabam entrando na dinâmica, mas o problema do machismo e do patriarcado estrutural não é tão fácil de romper.
Que urgências as políticas públicas precisam enfrentar para atender essas mulheres e como a sua história se conecta com essa luta?
Soledad_Um dos principais problemas é que tem que melhorar a fiscalização para erradicar o trabalho análogo à escravidão. A política pública também tem que aprofundar [o combate a]o olhar xenofóbico, racista e misógino contra as mulheres. Isso é fundamental, especialmente para as mulheres negras africanas, muitas superqualificadas, e as mulheres indígenas.
Também é essencial o acesso ao trabalho e à empregabilidade com critérios mais de acordo com a realidade das mulheres. As políticas precisam melhorar a forma como são feitas as entrevistas de emprego, que são horrorosas, exigindo fluentemente português. Dar acesso à qualificação técnica em horários, dias e lugares que correspondam à realidade delas. A regularização dos títulos profissionais, ou seja, a validação da formação que elas têm no país de origem é uma luta antiga, que já se arrasta há 15 anos.
Muitas delas empreendem alguma atividade para a geração de renda, e elas não têm acesso ao crédito. É muito difícil para elas. Seria interessante as políticas públicas pensarem, para realmente promover cooperativismo, microempresas, ou mesmo empreendedorismo, no acesso ao crédito às mulheres imigrantes e refugiadas.
As políticas públicas têm que ter esse olhar. Você tem que minimamente ter uma noção de qual a realidade com a qual elas saíram de seus países. A mulher vem de uma situação onde quase 99,9% têm problemas emocionais sérios, e muitas passam por violência no caminho. Elas não têm oportunidades de fazer concurso público.
Minha história pessoal me move: eu cheguei aqui em 1982, porque fui perseguida por defender os direitos humanos. Morei dez anos em Minas, passei por situações de violência. Nesse tempo, eu não tinha para onde fugir, onde buscar ajuda, quem pudesse me acolher. Eu só pude fazer a faculdade de Serviço Social depois que me separei. Eu voltei para São Paulo em 2014 e, em 2015, começamos a militância das imigrantes. Eu fiz a faculdade aqui e o mestrado em Belo Horizonte. Estou escrevendo um livro sobre a vida das mulheres imigrantes e tenho muitas histórias.
*Schirlei Alves atua com jornalismo investigativo orientado por dados e sob a perspectiva dos direitos humanos. Formada desde 2008 pela Univali, colaborou para o Epoch Times, no Canadá, e atuou como repórter nos principais jornais do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Seus trabalhos mais recentes foram para a Folha de S.Paulo, Abraji, Agência Lupa, O Joio e O Trigo, The Intercept Brasil e Portal Catarinas. Recebeu como reconhecimento os prêmios ABCR de Jornalismo, Unimed e RBS. Em 2022, concluiu especialização em Jornalismo de Dados, Automação e Data Storytelling pelo Insper.